Pesquisas no ramo em SC

Pesquisas no ramo em SC

Em Santa Catarina, pesquisas em nanotecnologia vão do setor têxtil ao de metalmecânica

A premissa é simples: algumas substâncias mudam suas propriedades de acordo com o tamanho. Para os pesquisadores da área de nanotecnologia – ciência sobre partículas em escala nano -, o desafio pode ser criar uma nova função para esta matéria ou apenas imitar a natureza. Em Santa Catarina, empresas de pesquisa e indústrias se unem para levar esse conhecimento para o cotidiano da população, seja por meio de um produto que é capaz de repelir sujeira de móveis ou um pó capaz de acelerar a reconstituição óssea dentária.

Na ciência sobre partículas em escala nano pode-se criar uma nova função para esta matéria ou apenas imitar a natureza

O pesquisador Leandro Berti é secretário executivo do API.nano (Arranjo promotor de inovação em nanotecnologia do Polo Tecnológico da Grande Florianópolis) e afirma que a nanotecnologia sempre existiu, mesmo antes de ser descoberta pela ciência. “A engenharia em nanoescala está na natureza. O que fazemos é tentar entendê-la para depois reproduzi-la. Ela também engloba todas as áreas do conhecimento. No nosso Estado, os setores metalomecânico, têxtil, médico e ambiental já utilizam produtos oriundos da nanotecnologia”, disse.

Os primeiros estudos sobre nanotecnologia surgiram após a percepção de que vários compostos apresentavam propriedades diferentes quando em proporções nano. “Um exemplo é o dióxido de titânio. Em escala macro ele apresenta brancura e é usado em tintas e na comida. Na escala nano ele é transparente e reflete outras tonalidades. São muitas possibilidades que se abrem quando estudamos partículas menores. Nesse caso, menos é mais”, informou Berti.

Durante a semana, o pesquisador organizou um workshop sobre o tema. Pesquisadores e representantes de empresas e do governo federal apresentaram resultados de novas pesquisas e discutiram os próximos passos da pesquisa nano no Brasil. “Além da Grande Florianópolis, que tem oito empresas de nanotecnologia, Criciúma, Palhoça, Joinville e Chapecó também têm iniciativas nessa área. Na API.nano já são 67 integrantes de Santa Catarina, entre empresários e pesquisadores, que estão em conversa permanente sobre o que produzimos no Estado”, contou.

Destaque nacional

Essa organização entre empresários e pesquisadores resultou numa vantagem do Estado com relação a outras regiões do país. “Em nanotecnologia, Santa Catarina é uma referência muito importante para o Brasil, pela diversidade de pesquisas na área”, afirmou Flávio Plentz, coordenador-geral de Micro e Nanotecnologias do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.

No Brasil, os primeiros estudos em nanotecnologia são do final da década de 1990. No entanto, foi apenas nos primeiros anos do século 21 que o governo federal começou a organizar as pesquisas e elas começaram a ser utilizadas pela indústria. “Hoje temos um grupo interministerial de nanotecnologia que conta com dez ministérios para reunir pesquisas em diferentes áreas do conhecimento. Por meio desse grupo, organizamos o SisNano (Sistema nacional de laboratórios em nanotecnologia), que tem a colaboração de 26 laboratórios no país”, disse Flávio. Um deles fica na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), em Florianópolis.

As inúmeras utilidades da nanotecnologia proporcionam o crescimento de um mercado que deve chegar a U$ 3,3 trilhões em 2018. A expectativa de especialistas é que o Brasil seja responsável por pelo menos 1% dessa fatia, sendo 10% originadas de pesquisas em Santa Catarina.

Nanotecnologia no dia a dia

Ao invés de gastar dinheiro com produtos químicos para limpar o chão de um auditório, por exemplo, que tal usar poucas gramas de um pó produzido em uma empresa de nanotecnologia, que repele sujeira, contaminação, fungo e outras coisas indesejáveis? Essa é a proposta do engenheiro de materiais Gabriel Nunes, um dos sócios da TNS Solutions, de Florianópolis. “Funciona como um banho químico durante o processo de fabricação do material, seja um piso de cerâmica ou o tecido do estofamento de um automóvel. O principal objetivo desse produto é reduzir problemas de saúde pública”, explicou.

Entre as possibilidades do pó “milagroso” inventado pela equipe da TNS está a produção de próteses para pessoas com deficiência. “A função antibacteriana permite que o pó possa ajudar na fabricação de próteses. Com o tempo de uso, não há o risco da pessoa se contaminar por alguma sujeira no material”, contou Nunes.

A TNS Solutions nasceu em 2009, após um grupo de pesquisadores ganhar prêmios na área de inovação tecnológica. Mesmo assim, a independência financeira só chegou este ano. “Depois de quatro anos de pesquisas e participação em prêmios, este foi o primeiro semestre que conseguimos ter lucro. A nossa vantagem é que terceirizamos o setor produtivo, então temos poucos funcionários”, afirmou.

Reconstruindo ossos

Aos poucos, a indústria tradicional vai se rendendo à nanotecnologia. Para a empresa do ramo de materiais odontológicos FGM, de Joinville, que está há 17 anos no mercado, essa mudança chegou em 2008. “Ninguém pode deixar de olhar as novas oportunidades quer surgem com o avanço da tecnologia. Quem fizer isso, vai ser excluído naturalmente do mercado”, disse o químico Friedrich Mittelstadt, da FGM.

A empresa produz um biomaterial que ajuda na reconstituição dos ossos da face. “Fazemos um pó, que é misturado com sangue ou plaquetas e pode ser injetado de forma cirúrgica no paciente. Nos nossos testes, a eficácia desse produto chega a ser o dobro do que atualmente é aplicado no mercado. E não estou falando apenas de tempo, mas também de qualidade do osso regenerado”, contou Friedrich.

A pesquisa para o produto aplicado na ossada começou em coelhos. Após um ano, a invenção passou a ser testada em pessoas, na UFF (Universidade Federal Fluminense), em Niterói. “Nosso planos é num futuro próximo usar esse biomaterial para a reconstrução de ossos não apenas da face, mas de outras partes do corpo”, disse.

Sem regulamentação

O Brasil não tem lei que regulamente a pesquisa em nanotecnologia. Apenas a cidade americana de Berkeley, na Califórnia, tomou iniciativa de produzir um documento que organize e fiscalize a produção nessa área. Em 2006, cientistas e políticos elaboraram a primeira lei no mundo que regulamenta o tipo de material, a finalidade e a quantidade produzida.

Quanto mede um nanômetro?

Um nanômetro é 1 x 10 (a menos 9) metros. Isso significa que o planeta está para uma moeda de cinco centavos, assim como uma bola de futebol está para um nanômetro. A nanotecnologia estuda materiais que estão entre 1 e 100 nm.

 

Link: https://ndonline.com.br/florianopolis/noticias/nanotecnologia-a-ciencia-invisivel, 24/11/13

Texto de: Hyury Potter